sorrindo para nada em particular antes de
se virar para Ned. - Aquela pequena tarefa que me atribuiu
está realizada, Lorde Eddard.
Varys entrou numa nuvem de alfazema, rosado do banho,
com a cara rechonchuda esfregada e empoada, os chinelos;
tudo nada discreto.
- Os passarinhos cantam hoje uma canção penosa - disse
enquanto se sentava. - O reino chora. Começamos?
- Quando Lorde Renly chegar - Ned disse. Varys dirigiu-lhe
um olhar pesaroso.
- Temo que Lorde Renly tenha abandonado a cidade.
- Abandonado a c idade? - Ned contava com o apoio de
Renly.
- Retirou-se por uma poterna uma hora antes da alvorada,
acompanhado por Sor Loras Tyrell e cerca de cinquenta
criados - contou-lhes Varys. - Quando foram vistos pela
última vez, galopavam para o sul com alguma pressa,
dirigindo-se sem dúvida para Ponta Tempestade ou Jardim
de Cima.
Lá se ia Renly e seus cem soldados, Ned não gostou
do cheiro daquilo, mas nada havia que pudesse fazer. Pegou a
última carta de Robert.
- O rei chamou-me ontem à noite e ordenou-me que
registrasse suas últimas palavras. Lorde Renly e o Grande
Meistre Pycelle testemunharam enquanto Robert selou a
carta, a ser aberta pelo conselho após a sua morte. Sor
Barristan, por bondade?
O Senhor Comandante da Guarda Real examinou o papel.
- É o selo do Rei Robert, e está intacto - abriu a carta e leu. -
Lorde Eddard Stark é aqui nomeado Protetor do Território,
para governar como regente até que o herdeiro se torne maior
de idade.
E por acaso e le já é maior de idade, Ned refletiu,
mas não deu voz ao pensamento. Não confiava nem em
Pycelle nem em Varys, e Sor Barristan estava obrigado pela
honra a proteger e defender o rapaz que julgava ser seu novo
rei. O velho cavaleiro não abandonaria Joffrey facilmente. A
necessidade de mentir deixava-lhe um sabor amargo na boca,
mas Ned sabia que ali tinha de pisar com cuidado, tinha de
guardar para si os seus projetos e jogar o jogo até estar
firmemente estabelecido como regente. Haveria tempo de
tratar da sucessão depois de Arya e Sansa estarem a salvo de
volta a Winterfell e de Lorde Stannis regressar a Porto Real
com todo o seu poder.
- Desejo pedir a este conselho que me confirme como Lorde
Protetor, segundo a vontade de Robert - Ned disse,
observando o rosto dos outros, perguntando a si mesmo que
pensamentos se esconderiam por trás dos olhos meio fechados
de Pycelle, do meio sorriso indolente de Mindinho e da
nervosa agitação dos dedos de Varys,
A porta abriu-se. Gordo Tom entrou no aposento.
- Perdão, senhores, o intendente do rei insiste... O intendente
real entrou e fez uma reverência.
- Estimados senhores, o rei exige a presença imediata do seu
pequeno conselho na sala do trono.
Ned esperava que Cersei atacasse rapidamente; a
convocatória não era surpresa.
- O rei está morto - disse -, mas iremos mesmo assim. Tom,
reúna uma escolta, por favor. Mindinho emprestou a Ned o
braço para ajudá-lo a descer os degraus. Varys, Pycelle e Sor
Barristan seguiam logo atrás. Uma coluna dupla de homens
de armas envergando cota de malha e capacetes de aço
esperava à porta da torre, oito ao todo. Os mantos cinza
bateram ao vento enquanto os guardas os acompanharam
através do pátio. Não havia nenhum carmesim Lannister à
vista, mas Ned sentiu-se tranquilizado pelo número de
mantos dourados que estavam visíveis nos baluartes e nos
portões.
Janos Slynt os recebeu à porta da sala do trono, coberto com
uma ornamentada armadura em tons de ouro e negro, com
um elmo de crista alta debaixo do braço. O comandante fez
uma reverência rígida. Seus homens empurraram as grandes
portas de carvalho, com seis metros de altura e reforçadas a
bronze.
O intendente real os fez entrar.
- Saúdem Sua Graça, Joffrey das Casas Baratheon e
Lannister, o Primeiro do Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos
Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e
Protetor do Território - cantou.
Era uma longa caminhada até o fundo do salão, onde Joffrey
esperava sentado no Trono de Ferro. Apoiado por Mindinho,
Ned Stark coxeou e saltitou lentamente na direção do rapaz
que chamava a si próprio de rei. Os outros os seguiram. A
primeira vez que percorrera aquele caminho tinha sido a
cavalo, de espada na mão, e os dragões Targaryen
observavam das paredes quando ele forçara Jaime Lannister
a descer do trono. Perguntou a si mesmo se Joffrey desceria
com a mesma facilidade.
Cinco cavaleiros da Guarda Real - todos, menos Sor Jaime e
Sor Barristan - dispunham-se em meia-lua em torno da base
do trono. Trajavam armadura completa, aço esmaltado do
elmo às botas de ferro, longas capas claras sobre os ombros,
brilhantes escudos brancos atados ao braço esquerdo. Cersei
Lannister e os dois filhos mais novos estavam em pé atrás de
Sor Borós e de Sor Meryn, A rainha trazia um vestido de seda
verde-mar, debruada com renda de Myr clara como espuma.
No dedo, tinha um anel dourado com uma esmeralda do
tamanho de um ovo de pombo, e na cabeça usava uma tiara
condizente.
Acima deles, o Príncipe Joffrey sentava-se no meio das farpas
e